Há milhões de anos a natureza desenvolve mecanismos internos de equilíbrio e auto-regulação, que se mantiveram em funcionamento pleno até o Homem iniciar o seu desenvolvimento tecnológico, criando equipamentos, manipulando o fogo, estabelecendo a agropecuária e tornando seus povoados cada vez mais sedentários.
Os caminhos do desenvolvimento foram promissores para a espécie, principalmente considerando os pouco mais de quatro mil anos de história ocidental: triplicou-se a expectativa de vida com o entendimento das ervas e os avanços da medicina; o domínio sobre os materiais proporcionou meios de defesa, transporte e melhorias na agropecuária; o conhecimento deixou de ser inato, comportamental, como em outras espécies, para ser transmitido de modo formal, através da escrita ou referências sociais, permitindo os avanços nas ciências e tecnologias através das gerações.
Esses benefícios conferiram ao Homem vantagens reprodutivas, e conseqüentemente, permitiram o aumento de sua população. Contudo, houve um custo histórico, principalmente a partir da revolução industrial, que está sendo cobrado dois séculos depois: recursos naturais não renováveis estão se esgotando e mesmo os renováveis, como ar e água, estão chegando a limites operacionais, de acordo com órgãos governamentais, ONGs e institutos de pesquisa.
Em 30 anos, muito de discutiu sobre as questões ambientais, tendo como marco a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (Rio 92) e surgiram propostas de desenvolvimento sustentável, como o plano de ação da União Européia, com metas estabelecidas para o incentivo ao desenvolvimento e uso de tecnologias ambientais até 2010. Até esses movimentos, a indústrias e governos se preocupavam em reduzir o impacto da poluição reduzindo os efeitos, a exemplo dos filtros e cubas de concreto e aço, mas não pela redução das causas da poluição.
Para os recursos não renováveis, têm-se observado tecnologias emergentes que se tornarão financeiramente viáveis quando tais recursos se tornarem escassos. A exemplo do petróleo, sabendo o volume dos reservatórios pode-se manter um preço, no momento, abaixo do custo com pesquisa e desenvolvimento de energias como a eólica e a solar. Quanto aos recursos renováveis, espera-se o uso consciente, que fique dentro da capacidade de suporte do planeta Terra, ou seja, que o consumo, degradação e renovação obedeçam a uma rotina equilibrada.
De acordo com RAPLEY (2006), não bastam as medidas políticas, técnicas ou comportamentais para se estabelecer o desenvolvimento sustentável, mas também deve ser incluído o controle populacional, no sentido de combater a superpopulação. Apesar dos conflitos éticos e morais, ao autor afirma que isso deve ser discutido em prol da qualidade de vida das futuras gerações.
Considerando a possibilidade da humanidade estar seguindo uma trajetória de consumo de recursos e formas de descarte de resíduos insustentáveis, tecnologias, políticas, indústrias e sociedade devem somar esforço conjunto para garantir a sustentabilidade do planeta. O presente trabalho pretende apresentar alternativas exeqüíveis para tal desenvolvimento sustentável.
Alternativas
O cenário de insustentabilidade atual foi formado por um conjunto de variáveis, como o desconhecimento da físico/química dos compostos, a avareza dos empresários, o descaso e a permissividade das autoridades, bem como a falta de comprometimento e engajamento da sociedade.
Pequenos hábitos pessoais, como fechar a torneira ao escovar os dentes, desligar as luzes ao sair do cômodo e usar o transporte coletivo ou a bicicleta para ir ao trabalho têm sido adotados por pessoas ao redor do mundo. São louváveis, mas não chegam ao ponto do desenvolvimento sustentável. O segundo momento desse movimento do âmbito pessoal, está na consciência do consumo, no qual os consumidores devem comprar somente aquilo que efetivamente será consumido, preocupando-se com a mão-de-obra e os materiais empregados na preparação dos bens de consumo adquiridos, e a origem, valorizando o desenvolvimento local, bem como com o tipo de material (orgânico, reciclável, biodegradável, atóxico). Por fim, as pessoas tem que voltar a ser cidadãs, e lembrar que as leis regem um país e, tais leis são redigidas pelos seus candidatos. Portanto, faz-se necessário maior envolvimento político, no sentido da cobrança e da auditoria sobre os poderes executivo e legislativo.
Quanto ao que RAPLEY (2006) se referia ao controle populacional, pode-se dizer, com base nos dados dos institutos censitários, de que a população está envelhecendo, não somente pelo aumento da expectativa, mas também pela redução de nascimentos. O IBGE (apud. ESTADÃO, 2008) prevê estabilização da população brasileira em 30 anos, por exemplo. Nesse caso, apesar da Terra estar chegando em seu limite operacional, as famílias já estão em um movimento de redução de prole, o que contribui, de forma inconsciente, para a preservação dos recursos naturais. Pelas teorias ecológicas, é possível explicar tal acontecimento, com base nos conhecimentos sobre espécies estrategistas r e K. As primeiras, se preocupam com o número da prole, sem desgaste com a manutenção dela. Normalmente se aplicam a ambientes de baixa densidade. As K, por sua vez, devido a pressões de alta densidade populacional, investem no indivíduo, tendo proles reduzidas, mas com capacidade de disputar por recursos escassos. Nesse contexto, os humanos passam cada vez mais de r para K estrategistas, permitindo uma estabilização natural da população.
O setor que mais contribui com a poluição do planeta é o industrial, que utiliza recursos renováveis ou não, contribuem diretamente com a emissão de gases de efeito estufa, poluem os corpos d’água com seus efluentes e, em muitas situações, prejudicam a saúde dos moradores locais e o equilíbrio do bioma local. Em alguns casos, algumas brechas legais ou a corrupção são utilizadas para burlar regulamentações ou normas ambientais. Para este setor, além do aumento no rigor das leis e da fiscalização, devem ser encontrados subterfúgios técnicos (inovação) para que se possa estabelecer uma indústria cada vez mais limpa, com a redução de impacto nos processos do negócio, e não no final da cadeia produtiva.
Considerando os avanços sociais que a tecnologia ofereceu para a sociedade, devem ser consideradas soluções tecnológicas para alcançar sustentabilidade. Além de permitir a limpeza de processos com equipamentos mais eficientes, o uso de materiais menos poluidores ou recicláveis, bem como a geração de energia limpa, a tecnologia tem condições de oferecer a toda a sociedade requerimentos mínimos de vida: ração diária (com aproveitamento máximo de grãos, geneticamente modificados ou não), água de reúso 100% potável, medicamentos e vacinas sintéticas, e educação (a distância, para reduzir emissões). Inclusive, a partir do momento em que a educação atinge a maioria da população e não há fome ou sede, forma-se um patamar social de possibilidades infinitas.
O atual cenário de crise pode representar avanços no desenvolvimento sustentável. Primeiramente, pode-se considerar a necessidade imediata de cortes de custos, que permitem a substituição de equipamentos antigos pelos de maior eficiência, a migração de processos de negócios para o formato eletrônico, e até mesmo a redução de custos com passagens e seguros com o uso de videoconferências e ferramentas remotas de colaboração. Nesse mesmo sentido, tecnologias de reúso de água e aproveitamento energético são aplicáveis, embora sejam investimentos para médio e longo prazo. Em uma análise mais especulativa, a queda de juros pode representar investimento nas tecnologias ambientais: uma vez que o capital de risco apresenta grande fragilidade, investidores poderão se interessar em aplicar o dinheiro em produção tecnológica, inclusive no desenvolvimento de novas tecnologias, que poderão render patentes e royalties. Embora as inovações continuem sendo um negócio de risco, o resultado final é um produto, e não o fruto de uma especulação.
Envolvendo os quatro elementos anteriores (sociedade, indústrias, tecnologia e investidores), há um quinto, parte integrante do processo: a educação. Seja pela mídia, seja pela boa vontade, a informação sobre a importância do desenvolvimento sustentável tem que alcançar o maior número possível de pessoas. Isso pode ocorrer de forma competitiva, como foi o caso do selo “Dolphin Safe” do atum, utilizado para retirar os japoneses da concorrência do pescado nos anos 80 nos EUA, ou de forma efetivamente educativa, apresentando os ciclos biogeoquímicos e demonstrando como cada pessoa faz parte de um grande equilíbrio (dinâmico) que precisa ser preservado.
Nessa análise da busca pelo desenvolvimento sustentável, também devem ser considerados os desastres naturais, decorrentes ou não pela ação do homem, que podem contribuir para a resolução de problemas ambientais. Por exemplo, caso o aquecimento global continue no ritmo de crescimento atual, a Groenlândia poderá contribuir para a elevação de até sete metros do nível do mar (RINCON, 2006). Considerando que a cerca de 80% das populações estão a menos de 100 km das costas, os sete metros a mais de mar poderiam alagar cidades inteiras, matando centenas de milhares de pessoas e forçando a migração de milhões. Nesse tipo de catástrofe, poderia ser considerada uma reconstrução limpa, sustentável, de uma nova sociedade. Fazendo uma comparação de escala, os 4,65 bilhões de anos da Terra fazem os 500 mil anos da história do Homo sapiens parecerem pouco. Durante milhões de anos a Terra passou por glaciações, grandes secas, tempestades infindáveis e, a passagem do Homem poderá se tornar somente mais uma camada nos extratos minerais desse planeta.
Conclusão
Tentei traçar um panorama de sugestões para o desenvolvimento sustentável, não indicar soluções.
Parece haver medidas cabíveis para alinhar a sociedade com a sustentabilidade, mas isso pode requerer mudanças de hábito, de consumo e vão exigir maior engajamento das pessoas. Afinal, um problema coletivo não pode ser resolvido por poucos.
A sociedade já está em um momento de mudança, no qual as pessoas começaram a perceber que não haverá qualidade de vida para seus netos, e o futuro depende de ações imediatas, desde a mudança de simples hábitos em casa ao atendimento rigoroso das leis e normas pertinentes.
Para saber mais
ESTADÃO. População brasileira deve estabilizar em 220 milhões. Disponível em:http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,populacao-brasileira-deve-estabilizar-em-220-milhoes,232974,0.htm 2008. Acesso em: 8 mai. 2009.
RAPLEY, C. Earth is too crowded for utopia. Disponível em:http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/4584572.stm. 2006. Acesso em: 08 mai. 2009.
RINCON, P. Greenland ice swells ocean rise. Disponível em: http://news.bbc.co.uk/go/pr/fr/-/2/hi/science/nature/4720536.stm. 2006. Acesso em: 08 mai. 2009.

